“Alias Grace” leva o espectador a se questionar

Não é possível dizer onde está a linha que divide o que é real do que é ficção em “Alias Grace”. A minissérie de apenas seis episódios chegou a Netflix em 2017, com direção de Mary Harron. A diretora é conhecidíssima por seu trabalho no filme “Psicopata Americano” de 2000.

O papel de interpretar a personagem principal, Grace Marks, ficou por conta da canadense Sarah Gadon (O Espetacular Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Electro). O mais impressionante aqui é que a série foi baseada na história de um assassinato real.

A história de “Alias Grace” havia sido previamente contada num livro. A obra foi um grande sucesso da também canadense e brilhante escritora Margaret Atwood (“O Conto da Aia“). Neste trabalho, que leva o mesmo nome, ela fez uso do misto de romance histórico com a adição de personagens e acontecimentos fictícios.

 

 

A história de Grace

Grace Marks, jovem de origem humilde, vem de uma família que lhe infligiu abusos intensos. Abusos esses que eram tanto físicos quanto psicológicos, durante toda a sua vida. Isso fez com que Grace saísse de casa em busca de uma vida melhor. No entanto, ela é condenada, junto com James McDermott (personagem interpretado por Kerr Logan) pelo assassinato do dono de uma propriedade e de sua governanta. É aí que ficção e realidade se misturam: o crime real aconteceu no ano de 1843. Naquela época, o fazendeiro Thomas Kinnear, junto com sua criada Nancy Montgomery, foram encontrados mortos.

Dessa forma, Grace e James foram acusados do crime e tiveram suas sentenças dadas: ambos seriam enforcados. Antes do julgamento os dois, Grace e James, foram encontrados tentando fugir do Canadá para os Estados Unidos. Consequentemente, a imprensa da época dizia que se tratava de um casal. No entanto, a então jovem de 16 anos Grace Marks não teve seu mandato de morte cumprido no mesmo dia que o de McDermott. Passou, então, os anos seguintes trancafiada numa cela aguardando um novo julgamento.

Anos depois, um alienista (que nos dias atuais seria o mesmo que um psiquiatra) é contratado para analisar o caso e inicar uma série de entrevistas com Grace. O relatório final do médico Simon Jordan (Edward Holcroft) teria então o peso de lhe conceder a liberdade. Ou, ao menos, esclarecer quais os motivos que levaram a assassina a cometer tal homicídio. Dessa forma, devia elucidar a dúvida: até que ponto Grace Marks realmente teria participado do ato? É certo que ela teve ao menos algum envolvimento no delito. Porém, nesse ponto é impossível dizer o que realmente aconteceu e o que se trata de liberdade criativa tanto de Atwood quanto de Harron.

 

O veredito (sobre a série)

A história é contada em pedaços, como uma colcha de retalhos. Tudo vai se formando em volta de diversas cenas que revivem o passado para que a personagem principal consiga relatar o que realmente aconteceu. o que é apenas falatório da sociedade da época e o que poderia se tratar de calúnias levantadas por um júri de homens que fariam de tudo para ver o fim daquela “criminosa”.

A série levanta questões importantes como o abuso físico e mental, traumas psicológicos, feminismo e tortura. Dessa forma, “Alias Grace”, que teve o roteiro escrito por Sarah Polley, leva o espectador a se questionar. Até onde as pessoas, enquanto comunidade, são capazes de seguir em frente com um julgamento repleto de opiniões e com quase nenhuma prova? A série ainda é capaz de levar até o público um pouco dos horrores sofridos pelos pacientes psiquiátricos daquela época. Por fim, a audiência irá concluir o quão culpada realmente é a jovem Grace Marks.

Post Author: João Neto

Paraibano de nascimento, atualmente morando em Curitiba, leitor assíduo, graduado em Biblioteconomia e livreiro por profissão com um vício intenso no consumo de séries e filmes e outro maior ainda em escrever o que achou deles.

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