Crítica: “The Clovehitch Killer”

Depois de ver “The Clovehitch Killer“, me peguei pesquisando na internet sobre o filme. Encontrei algumas críticas falando mal sobre esse ele. As desculpas são as mesmas de sempre: o roteiro é pobre, o roteiro é clichê, etc. Isso sem contar as pessoas que falam que o filme tem uma execução de filme independente. Honestamente, tudo isso é coisa para críticos detalhistas.

Imagino que um filme precisa capturar o público e prender a sua atenção de forma que não seja possível desprender os olhos da tela. Isso sim é uma produção de sucesso. “The Clovehitch Killer” preenche esses requisitos com louvor.

O filme, dirigido por Duncan Skiles, é na verdade uma belíssima história de terror, e que também aproveita para fazer algumas críticas a uma sociedade que dá importância demais à religião. Dessa forma, ele traz elementos dos mais celebrados longas do gênero, misturando a uma narrativa que fala sobre a hipocrisia e a mentira. Consequentemente, mostra um outro lado da sociedade, que é cega para com seus líderes religiosos. Poucas pessoas notaram essa questão. É uma pena. Talvez isso tenha feito o filme não ter tanta repercussão quanto merece.

A história de um assassino em série em período de dormência é escrita e dirigida de forma fantástica. No decorrer da história, notamos pequenas situações que juntas, formam um grande background. Na pequena cidade, somente os cristãos são respeitados, como é visto logo no começo. Qualquer coisa que fuja desse padrão é visto como impuro. Assim, qualquer pessoa que não siga as regras ditadas pela comunidade cristã é visto como pária. Skiles trabalha isso sutilmente, sem qualquer alarde, mas no fim faz todo o sentido.

 

“The Clovehitch Killer” e sua história horripilante

Entretanto, é melhor começar do começo. A história do filme mostra uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos. Há dez anos, um assassino em série conhecido como Clovehitch Killer assassinou dez mulheres de forma aparentemente aleatória. Então, ele parou. Sumiu, desapareceu. No entanto, as pessoas na cidade vivem assombradas pela lembrança das mortes. Tanto é que todos os anos se organizam para lembrar os mortos – mulheres em posição de vulnerabilidade. É aí que conhecemos a família de Don, um líder escoteiro que também é um homem bem importante no lugar, religiosamente falando. Além dele, há a esposa e os dois filhos, sendo Tyler o mais velho. O garoto, de 16 anos, vai à igreja regularmente, segue fielmente as regras da sociedade cristã e vive uma vida normal. Podemos considerá-la até mesmo modorrenta.

Certo dia, Tyler acaba descobrindo nas coisas de seu pai uma foto de uma das garotas assassinadas na cidade. A partir daí, ele entra em uma jornada para descobrir seu Don, um grande líder comunitário e homem da igreja, é o tal Clovehitch Killer. Para isso, ele conta com a ajuda de uma garota chamada Kassi, que é vista por todos como imoral por não participar das questões religiosas do local.

 

Crítica sutil e terror sufocante

Não fica difícil notar que a religião aqui é usada para camuflar os segredos e perversões das pessoas que fazem parte dessa comunidade. Dessa forma, “The Clovehitch Killer” vai além de um thriller convencional e também passa a ser um filme que critica esse tipo de sociedade. Tyler é um garoto até mesmo oprimido pelas regras as quais ele é submetido. Ele mal consegue “sair da linha” sem ser vigiado e julgado pelos seus atos. Acontece até mesmo dele ser considerado culpado por algo do qual ele nem tem culpa. Isso fica visível em uma cena na caminhonete de seu pai, que acaba se espalhando pela sociedade e deixando-o mal visto com todos.

Cena de “The Clovehitch Killer” – Foto: Reprodução

Para tal, o filme usa dois atores que conseguem entregar performances calibradas. O talentoso Charlie Plummer (neto de Christopher Plummer) interpreta Tyler, o garoto que desconfia que seu pai é um criminoso procurado. A tensão fica visível em seu rosto com cada descoberta, com cada nova desconfiança. Até mesmo a sua fé vai se abalando aos poucos. Dylan McDermott também entrega uma performance sutil, que vai se tornando intensa com o tempo, à medida em que ele se sente acuado com as desconfianças do filho.

O roteiro, escrito por Christopher Ford, a partir de determinado momento não deixa qualquer dúvida sobre a natureza dos personagens. Ainda mais quando notamos a delicadeza da relação entre pai e filho, que aos poucos desmorona. Da mesma forma, ele constrói um clima que vai se tornando insuportável até que acontece o inevitável. Nesse momento, somos surpreendidos por uma troca de ponto de vista. Dessa forma, voltamos um pouco no tempo e assistimos as mesmas situações sob o olhar de outra pessoa. Esse recurso, usado com frequência em novelas, cabe muito bem aqui.

 

Clichê bem empregado

Discordo, portanto, de quem diz que isso é um enorme clichê. É preciso acabar com o preconceito com o clichê bem empregado. Acima de tudo, é preciso dizer que o clichê bem usado é como um arroz e feijão bem temperado. É preciso saber fazer para que ele fique bom. “The Clovehitch Killer” é um bom exemplo disso. Para olhares mais críticos, ele pode ser considerado batido, nada inovador. Consequentemente, deveria perder pontos por isso. Nada mais longe da verdade, ao menos neste caso.

Cena de “The Clovehitch Killer” – Foto: Reprodução

O longa emprega recursos narrativos que já vimos antes, sim. Só que a intenção não é revolucionar o cinema ou o gênero do suspense. Em contraste com diversos filmes de terror que são lançados anualmente nos cinemas, este longa está muito acima em qualidade. Faz companhia a “Hereditário” ou “Um Lugar Silencioso” na lista de bons suspenses de 2018.

Certamente, “The Clovehitch Killer” não tem a intenção de ser um marco na história cinematográfica. Porém, sabe empregar os recursos que estão à mão para fazer um suspense sufocante. A jornada de Tyler na investigação sobre seu pai deixa o espectador tenso o tempo inteiro. Como resultado, terminamos chocados, ainda mais com a cena final. O último frame é bastante revelador. Provavelmente era essa a intenção.

Post Author: Luiz Henrique Oliveira

Nascido em Capão Bonito, criado em Itapetininga, residente de São Paulo. Gosta de filmes, de séries, de livros e de dar uns rolês aleatórios. Acha "O Poderoso Chefão" o melhor filme do mundo quando não lembra que "2001" consegue ser melhor. É religioso: tem muita fé em Stanley Kubrick.

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