“Gris” e as alegorias do luto, da depressão e da redenção

Gris” é um jogo que descobri quando estava sem muita coisa para fazer em casa. Foi durante uma pesquisa, que me levou para uma página que falava sobre esse jogo, recém lançado. Consequentemente, lendo o curto artigo que encontrei, acabei encantado. Procurei, achei e joguei. E ao fim, fiquei sem palavras. Essa produção é, sem qualquer dúvida, uma produção gigantesca para falar de coisas que, até então, tratávamos apenas de forma particular.

A história de “Gris” – que significa “cinza”, em espanhol – parece sem sentido no começo. A personagem principal mantém uma relação com uma estátua que se desfaz. Isso acaba tirando a sua voz e as cores do seu mundo. A partir disso, o jogador precisa avançar na história e recuperar, ao longo de cinco fases, as cores e as habilidades para ultrapassar os obstáculos. Não há ninguém perdendo, mas sim recomeçando.

Isso parece familiar de alguma forma?

De imediato, para mim não. Ao terminar o jogo, apesar de encantado com o seu desfecho, imaginei coisas completamente diferentes sobre ele. Por exemplo: achei que o tema fosse a construção do mundo. Em cada fase, um aspecto do planeta é recriado, e culmina com a criação da humanidade (o que parecia fazer sentido, já que na Bíblia, a mulher foi criada antes do homem). Não precisei mais do que dez minutos para entender que não era esse o caso. Parecia mesmo que “Gris” falava sobre algo maior, e eu sentia que tinha algo ali que escapava da minha compreensão, mas fazia sentido na minha cabeça.

Foi então que eu notei qual era a mensagem que o jogo passava realmente. Percebi que “Gris” é uma alegoria sobre o luto e a depressão, temas que conheço bem. Então, notei a sua genialidade.

 

"Gris" é um jogo de jornada emocional que fala sobre a depressão e o luto.
Frame de “Gris”, um jogo emocionalmente poderoso – Foto: Reprodução

A depressão e as cinco fases do luto

Sofro de ansiedade e depressão. Isso surgiu sem qualquer motivo em minha vida, apenas aconteceu. Fui diagnosticado e desde então, passei a conviver com isso. Tomo meus medicamentos, tento controlar os efeitos colaterais desses problemas sempre que eles surgem. Talvez por isso “Gris” mexeu tanto comigo: a protagonista está passando pelas cinco fases do luto depois de perder um ente querido, e por isso precisa lutar para combater a depressão que isso causa em sua vida.

Até o momento, nunca passei pela experiência do luto. Mas sei que isso vai acontecer um dia. As pessoas são finitas, não existem para sempre, por mais que a gente queira isso. Dessa forma, tenho tentado me preparar para quando isso finalmente pairar sobre mim. Mas conheço bem a batalha que se trava quando a depressão chega. Parece que tudo no mundo perde a cor, a gente perde a voz, a vontade de seguir em frente.

No entanto, a vida não pára. Temos que levantar e continuar.

Enfrentar os obstáculos para fazer com que a vida tenha cor novamente. Reconheci isso em “Gris”, quando a adorada estátua da protagonista se desmonta (simbologia à morte daquela pessoa) e ela fica sem voz. As cores somem do seu mundo, que se resume aos tons de cinza. Sua luta, a partir de então, é contra os obstáculos que a impedem de seguir em frente e recuperar as cores – portanto, a alegria e a vontade de viver.

 

Livre como um pássaro azul

Pesquisando um pouco sobre as cinco fases do luto, descobri que elas são compostas pela negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Cada uma delas com suas próprias barreiras a serem transpostas, até chegar ao final da batalha, quando conseguimos a liberdade. Nos livramos de todos os horrores de uma vida sem cor, sem luz, e ganhamos os céus para voar livres para o resto da vida. É o encontro da redenção.

Mesmo quem não está passando pela dor do luto conhece seus obstáculos, e anseia pela liberdade de viver em harmonia consigo mesmo.

“Gris”, portanto, me tocou de uma forma absurda por ser um retrato comovente da luta contra a depressão. Quem passa por isso busca a libertação desse flagelo. David Bowie, antes de morrer em janeiro de 2016, escreveu a música “Lazarus“. De forma cifrada, ele falou sobre sua luta contra o câncer e a vontade de ser livre como um “pássaro azul”. No caso, era uma metáfora que queria dizer sobre a libertação de suas dores, de sua doença, provavelmente sobre a sua morte, quando ele deixaria o corpo e seria livre para voar para o céu.

Da mesma forma, quem se vê com depressão deseja essa liberdade. Deseja alcançar essa redenção. Entretanto, o caminho não é fácil. Às vezes é preciso usar a raiva, a frustração e o medo como armas que ajudam a nos catapultar para a próxima fase. No jogo, isso é mostrado com delicadeza: não é preciso morrer para aprender. Usa-se algumas dessas situações para aprender a seguir firme durante uma tempestade, por exemplo. É um game onde aprender com o comum é essencial para chegar ao seu final.

 

“Gris” e o apelo emocional

Por isso, “Gris” tem um enorme apelo emocional, tanto para quem passa ou já passou pelos problemas do luto e da depressão, ou para quem nunca teve essa experiência. Para mim, foi como rever a jornada que me levou à estabilidade, depois de uma intensa luta interna para chegar até esse ponto. Certamente, pessoas que perderam entes queridos também vão se reconhecer nessa história.

A enorme delicadeza com a qual os artistas do Nomada Studios – empresa espanhola sediada em Barcelona – trataram esses temas é comovente. Tal qual na vida, conforme superamos desafios, tudo ganha mais cor, mais música, mais sons. Ao fim, culmina em um final poderoso, emocionante e libertador. A trilha sonora, o design de todas as fases e principalmente o roteiro que nos leva nessa jornada transformam “Gris” em um jogo essencial. Do começo ao fim, é uma jornada de dor e tristeza. Entretanto, ela nos leva por caminhos até então desconhecidos rumo àquilo que realmente interessa: a sensação de estar, finalmente, livre. É poesia pura.

 

Post Author: Lucas Rodrigues

Gosto de jogos, de música e de bichinhos fofos.

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