A contribuição literária, cinematográfica e televisiva de Stephen King

Uma garota com poderes telecinéticos atormentada pelo bullying e a perseguição religiosa. Um cachorro fora de controle durante um surto de raiva, onde é capaz de assassinar qualquer pessoa. Uma entidade que assume a forma de um palhaço macabro, que captura crianças e às leva ao submundo. Um carro assassino. Ratos gigantes que matam funcionários de uma fábrica.

Um fetiche sexual que dá errado e acaba deixando uma mulher presa a cama por dias. Uma fã alucinada que é capaz de fazer tudo, tudo mesmo, para manter seu escritor favorito por perto. Um cemitério amaldiçoado que ressuscita aqueles que são enterrados ali. Um vendedor de beira de estrada, que é capaz de vender qualquer coisa que você deseje. Um presidiário com poderes milagrosos. E – por que não? – uma lavanderia assassina.

 

Eu sei, a sequencia infinita de personagens já está ficando grande demais. Entretanto, é quase interminável a quantidade de personagens que saíram da mente absurdamente criativa e macabra de Stephen King. O já senhor de 71 anos é responsável por uma mescla de criaturas soturnas. Dessas que tiraram o sono de muita gente nos últimos 45 anos.

 

O começo de tudo

Desde cedo, King se mostrou fascinado pelo mundo literário. Quando criança, ele era viciado na leitura de quadrinhos como o “Contos da Cripta”, que despertou seu amor pelo Terror. Jovem, decidiu estudar Inglês na Universidade do Maine. Após um tempo, decidiu se casar com Tabhita King – que também é escritora. Consequentemente, após pouco tempo o casal se viu numa situação financeira difícil. Dessa forma, diante do aperto que passavam, Stephen tentou ganhar a vida da única maneira que conhecia. Então, começou a vender seus contos para toda e qualquer revista que pagasse um tostão furado. Assim, o casal se virou até o seu primeiro romance ser publicado em 1974.

Porém, o sucesso de “Carrie” foi tanto que apenas dois anos depois de lançado o livro, uma adaptação cinematográfica foi encomendada. Em 1976, tivemos o primeiro filme baseado num livro do escritor. Em seguida, a atriz Sissy Spacek deu vida à personagem perturbada saída das páginas de King. Logo de cara ela recebeu uma indicação de Melhor Atriz no Oscar de 1977. Duas outras adaptações de “Carrie” foram feitas para o cinema: a segunda em 2002 e a terceira em 2013. No entanto, nenhuma alcançou o sucesso estrondoso da primeira versão.

 

Um sucesso atrás do outro

Sissy Spacek como Carrie em “Carrie” de 1976

Como resultado desse sucesso, os anos 70 e 80 inteiros foram marcados por dezenas de versões dos livros de King para o cinema e para a TV. “The Shining” (“O Iluminado”), “Cujo” (“Cão Raivoso”), “Children of the Corn” (“Colheita Maldita”), “Misery” (“Louca Obsessão”), entre outros. Esses títulos lotaram salas de cinema, e dividiram o mundo entre o verdadeiro fascínio e o horror absoluto. Personagens como o palhaço Pennywise e o escritor Jack Torrance entraram para o imaginário popular como nomes a serem lembrados por ainda muitas décadas até mesmo por quem não conhece a obra de Stephen King.

Por outro lado, seria mesquinho resumir King apenas como um escritor de histórias de terror. Alguns títulos como “À Espera de um Milagre”, “Shawshank Redemption” (“Um Sonho de Liberdade”) e “Stand by Me” (“Conta Comigo”) mostram uma faceta do escritor que até então não tinha sido mostrada ao público. Dessa forma, o drama se sobrepõe de maneira gloriosa ao terror em qualquer uma dessas histórias. Nelas, o horror seria de um tipo muito mais psicológico do que o gerado por assombrações e criaturas fictícias.

 

Um universo todo seu

Além de participar da produção e direção de alguns desses filmes e séries, King ainda fez ponta de ator em algumas ocasiões. Pudemos vê-lo como um padre em “Cemitério Maldito“, aparecendo rapidamente num café local em “Sob a Redoma” ou até como um motoqueiro soturno na série “Sons Of Anarchy“. Essa última é uma das únicas que não tem ligação nenhuma com as suas obras.

Participação de Stephen King na série “Sons of Anarchy”

Qualquer leitor assíduo da obra dele já deve ter notado como o “Universo Stephen King” está todo conectado. Castle Rock é cenário para muitas de suas obras, a cidade fictícia foi criada para ser palco dos horrores vividos por alguns de seus personagens. Recentemente, uma série do mesmo nome foi lançada. “Castle Rock” tem uma temporada com dez episódios, e gira em torno dos mistérios que rondam a pequena cidade – fruto da imaginação do escritor. Ao ler a saga de livros “A Torre Negra”, você vai ser transportado para um cenário comum no livro “A Dança da Morte”.

Não é difícil ler um de seus contos onde um personagem fale sobre um acontecimento do passado ocorrido em outro de seus livros. Ou, ainda mais inesperadamente, ao ler “Doutor Sono”, a continuação de “O Iluminado” o leitor pode se deparar com uma citação a um personagem do livro “Nosferatu”. Este, que foi escrito pelo filho de Stephen King, Joe Hill.

 

Stephen King o ano todo

Verdade seja dita: com mais de sessenta obras publicadas, seria impossível que algumas coisas bem ruins não chegassem até o público. A não ser que você seja fascinado por filmes muito “trash”, é melhor passar longe de alguns longa metragens baseados nos escritos do autor. Filmes como “Cat’s Eye” são um verdadeiro exercício de paciência.

Parece ainda que alguns diretores e produtores não estão satisfeitos com a existência de apenas uma adaptação. Volta e meia ressuscitam determinados filmes de King. Obras como “It – A Coisa”, a já citada “Carrie”, “O Iluminado” e “Cemitério Maldito” ganharam ou estão para ganhar versões diferentes. Sejam elas para o cinema ou para a televisão. Algumas delas são um reboot necessário. Por outro lado, seria melhor que algumas outras não tivessem saído do papel.

 

O nome do Rei

Stephen King é o rei da literatura de terror. Isso todo mundo sabe. Entretanto, pouca gente tem a dimensão da sua contibuição para o audiovisual.Para não me estender mais, como fã ferrenho da obra literária de Stephen King, reconheço que ele pode não ser o escritor mais refinado do mundo. Todavia, sua escrita possui vários atrativos. A fórmula encontrada por King para trabalhar seus personagens. A linguagem sincera e crua. As narrativas que podem surgir num contexto de um drama familiar ou até num reino medieval mitológico (para quem não sabe, a ficção fantasiosa já foi o foco de Stephen no livro “Os Olhos do Dragão”). Enfim. Essas são apenas algumas das características marcantes de um autor que é difícil de acompanhar. O único defeito de King é não ter freios quando se trata de lançar seus livros: se você costuma ler suas obras, já deve estar habituado com o fluxo constante de lançamentos. Qualquer leitor pode relatar que, enquanto se lê um de seus livros, outros dois já foram lançados.

Em meio a tantos filmes, séries e livros, pode-se concluir que Stephen King já deixou sua marca no mundo pop. Seja você fã de Terror, Drama ou Ficção, é impossível não ter ouvido falar sequer uma vez o nome do Rei.

Post Author: João Neto

Paraibano de nascimento, atualmente morando em Curitiba, leitor assíduo, graduado em Biblioteconomia e livreiro por profissão com um vício intenso no consumo de séries e filmes e outro maior ainda em escrever o que achou deles.

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