Crítica: “Gloria Allred – Justiça Para Todas” mostra a vida profissional e pessoal da advogada feminista

Em “Gloria Allred – Justiça para Todas”, conhecemos uma advogada determinada a defender as mulheres e minorias de um sistema opressor e absurdo.

Pensar em Gloria Allred é arremeter a memória a um passado não muito distante. Nele, mulheres serviam única e exclusivamente para as ocupações do lar. Manter suas casas limpas. Comida fresca pronta em pouco tempo. Filhos com a melhor aparência possível, E, obviamente, servirem aos seus maridos na cama ou fora dela num cotidiano de silêncio e subserviência constante.

A enorme maioria das mulheres vivia nessas condições e em silêncio. Um grande número delas até defendiam esse estilo de vida, em nome dos bons costumes, das tradições sociais e em prol da religiosidade. No entanto, outras se mostravam cada vez mais descontentes com a realidade a que eram submetidas. Gloria Allred era uma delas. Como muitas, ela se sentia ultrajada em viver como uma máquina de serviços domésticos, bem como um brinquedo sexual para os homens ao seu redor.

Nos anos 70 eram comuns, nos Estados Unidos, programas de auditório que levavam discussões para o espectador. Falavam sobre feminismo, aborto, direitos dos gays, direitos dos negros, entre outros. Dessa forma, falavam sobre assuntos sociais de relevância que antes não chegavam ao público em geral. Por outro lado, era tudo muito enfeitado e sensacionalista, com o claro objetivo de gerar audiência. É em um desses cenários televisivos que se inicia o documentário “Gloria Allred – Justiça Para Todas”, disponibilizado em 2018 pelo Netflix.

 

“Gloria Allred – Justiça para Todas” mostra uma mulher de coragem

O documentário, de aproximadamente 90 minutos, foi dirigido e produzido por Roberta Grossman e Sophie Sartain. Elas são conhecidas pela direção e produção de outros documentários. Logo no início elas deixam claro que, desde muito jovem, Allred esteve disposta a dar a cara a tapa. Principalmente no que diz respeito aos direitos das mulheres.

Ela sempre encarou homens que, na grande maioria das vezes, estavam dispostos a fazer de tudo para ridicularizá-la frente ao público. Gloria, portanto, nunca se rebaixou ao papel de mulher submissa. Ela enfrentou meio mundo para defender suas clientes, vítimas de abusos sexuais, psicológicos e morais. Com isso, tornou-se advogada de sucesso nacional. Assim, deu início a uma carreira de sucesso que dura até hoje. Ela já enfrentou adversários monstruosamente grandes como por exemplo, o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Além disso, também teve participação no processo de acusação do famoso atleta O. J. Simpson, que foi acusado de assassinar a própria esposa. No entanto, seu caso mais famoso é mais recente. Trata-se da defesa de mais de 50 mulheres que foram drogadas e estupradas por Bill Cosby. O ator ficou famoso nos anos oitenta pelo programa “The Cosby Show”, e acabou condenado pelos crimes.

 

Desconfiança, descrença e esperança

Em "Gloria Allred - Justiça para Todas", conhecemos uma advogada determinada a defender as mulheres e minorias de um sistema opressor e absurdo.Ficamos cientes, desde o inicio do documentário, que o nome de Gloria cresceu ao ponto de gerar a descrença de muita gente que acompanhava seus casos. Tudo foi sempre cercado pela mídia, que não dava trégua. Os processos que por vezes envolviam dezenas de milhões de dólares. Por conta disso, muitas vezes foram debatidos tanto em telejornais sérios quanto em programas matinais de fofocas. Aqueles que faziam questão de deixar clara a sua oposição quanto aos direitos clamados pela advogada não perdiam a oportunidade de expressar a sua opinião. Em outras palavras: afirmavam que todas aquelas mulheres estavam apenas em busca de dinheiro.

Por outro lado, não foi só em defesa das mulheres que Gloria Allred lutou. Ela também teve como pauta a defesa dos direitos da população LGBTQ+. Certamente, causou a insatisfação de pessoas religiosas, de extrema direita e tradicionalistas extremos, é claro.

Não nos cabe julgar quais dos seus clientes mentiram e quais deles falaram a verdade diante das câmeras e dos tribunais. Em sua grande maioria, vítimas de abusos podem demorar décadas para obter a coragem necessária para contar ao mundo tudo pelo que passaram. Poucas pessoas com real poder em suas mãos são capazes de usar a sua plataforma para sair em defesa dessas vítimas que são tão desacreditadas.

O documentário “Gloria Allred – Justiça Para Todas” serve como um exercício de análise social. Principalmente para entender as situações vividas por centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo. Acima de tudo, é também um passatempo nada cansativo para aqueles que gostam de um bom documentário.

Post Author: João Neto

Paraibano de nascimento, atualmente morando em Curitiba, leitor assíduo, graduado em Biblioteconomia e livreiro por profissão com um vício intenso no consumo de séries e filmes e outro maior ainda em escrever o que achou deles.

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