"Soni" é um filme necessário para mostrar o sexismo presente na sociedade indiana.

Crítica: “Soni” é um filme Netflix que escancara o sexismo na sociedade indiana

Soni” é um retrato da desigualdade na sociedade indiana.


 

O filme, que estreia no catálogo da Netflix agora, concorreu a diversos prêmios em festivais durante 2018. Ele aborda a questão do tratamento que as mulheres recebem por conta da tradição masculina naquela região. Não importa se elas são mais talentosas, corajosas ou eficientes que os homens. Aparentemente, o fato de ser do sexo feminino já faz com que elas comecem perdendo qualquer disputa.

O longa traz essa temática de forma bruta, sem economizar. A direção pesada e a fotografia soturna, com as cenas quase sempre se passando à noite, é proposital. E nesse caso, não são defeitos. “Soni” tem, de fato, uma história pesadíssima e que pode não agradar a todos os públicos. No entanto, é um tema de necessária discussão, e o filme traduz isso nas duas personagens principais, duas policiais que precisam enfrentar criminosos sexuais na delegacia onde estão lotadas – e também o preconceito e a desatenção dos homens ao seu redor.

 

Veja a nossa opinião sobre o filme no vídeo!

 

As duas histórias de “Soni”

“Soni” é o nome de uma das personagens principais. Ela é uma jovem policial que tem um sério problema em conter a sua tempestuosidade. Ela trabalha em uma delegacia indiana, justamente na área que investiga e prende stalkers e molestadores sexuais. Isso fica claro logo na sequência inicial, onde entendemos como é o seu trabalho e também o temperamento dessa garota. Ela também tem uma vida pessoal atribulada, pois vive sozinha em um pequeno apartamento. Isso porque ela saiu de casa depois de problemas com seu ex-marido, que tenta voltar com ela a todo custo. Entretanto, Soni é uma pessoa dura, mau humorada. Por conta de seus problemas para conter a raiva, ela é rebaixada para o atendimento telefônico da polícia, o que só piora a sua situação.

Por outro lado, o filme apresenta a chefe de Soni, chamada Kalpana. Ela é uma mulher integralmente dedicada ao trabalho. Seu marido é um chefe de polícia que não dá muita atenção a ela. Por outro lado, há problemas com sua sogra, que a pressiona para que ela tenha logo um bebê. Ela representa a sociedade tradicional indiana. Por ser tão pressionada por vários lados, Kalpana se tornou uma pessoa rígida. Porém, às vezes deixa escapar alguma afetuosidade – como acontece na sua relação com Soni. As duas mulheres, portanto, tem as suas vidas cruzadas na delegacia. Assim, precisam lidar com o sexismo na sociedade indiana, seja dentro ou fora do ambiente de trabalho.

 

Falta de profundidade

"Soni" é um filme necessário para entender o conservadorismo da sociedade indianaEste primeiro longa dirigido por Ivan Ayr consegue um bom resultado ao misturar o drama policial com a crítica ao modo como as mulheres são tratadas na Índia. Sabemos que o país preza demais as suas tradições, e isso evidentemente causa uma grande pressão sobre as mulheres, que são vistas com outros olhos pelos homens. Até mesmo outras mulheres, mais velhas (como no caso da sogra de Kalpana) acabam entrando no jogo do sexismo, pressionando as outras a cumprirem as suas alegadas funções dentro dessa sociedade.

Ayr trabalha muito bem esse drama pessoal, sem deixar de lado certa ação policial, como nos casos em que as duas policiais precisam trabalhar para descobrir e prender os molestadores que atacam na cidade.

Apesar de ter várias qualidades e interpretações intensas de suas atrizes principais – Geetika Vidya Ohlyan como Soni e Mohit Chauhan como Kalpana – o filme às vezes peca pela falta de profundidade dos diálogos. Há momentos em que a imagem é mais poderosa do que a palavra, o que causa um efeito estranho na tela: isso deixa as atuações parecendo um pouco forçadas, como se a temática não encaixasse com as personalidades apresentadas. Entretanto, esse defeito não é suficiente para tirar a força que “Soni” causa no espectador, trazendo uma história poderosa e, em muitos aspectos, revoltante.

 

Post Author: Luiz Henrique Oliveira

Nascido em Capão Bonito, criado em Itapetininga, residente de São Paulo. Gosta de filmes, de séries, de livros e de dar uns rolês aleatórios. Acha "O Poderoso Chefão" o melhor filme do mundo quando não lembra que "2001" consegue ser melhor. É religioso: tem muita fé em Stanley Kubrick.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *